
"Acabou-se o suspense que de resto, já não era grande,
sabendo-se que Paulo Bento embora com métodos e motivações
distintas - alinharia pelo conservadorismo de Scolari nas suas
chamadas a uma fase final, demarcando-se das aventuras em boa parte
inconsequentes, de Carlos Queiroz.
Por outras palavras, a convocatória de jogadores para disputar a
fase final do Euro'2012 concretizou-se sem surpresas, pelo menos do
lado dos que viajam para o Leste da Europa em defesa das nossas
cores.
Os casos mais assinaláveis são três: o de Custódio, que todos
deram como acabado para as grandes conquistas depois do seu exílio
russo, é um caso de renascimento, mantendo ao longo de toda a época
um rendimento uniforme que permite dizer com segurança que não há
disponível, neste momento, um melhor médio defensivo português; o
de Nélson Oliveira, a quem o selecionador aponta "características
diferentes" entre os avançados, conseguindo com essa chamada -
marcar pontos no sector benfiquista e, ao mesmo tempo, abrir portas
à chegada dos mais novos, indispensável para uma transição que
há-de pedir-se pacífica.
Isto sem menosprezo do valor intrínseco do atleta.
Por fim, Varela, que nem sempre se impôs na sua equipa, mas que
é portador de uma classe (algo inconstante, é certo) que pode, em
caso de necessidade, render as dos naturais titulares (Cristiano
Ronaldo e Nani) e desse génio imprevisível que é Ricardo
Quaresma.
Tudo é pacífico? Nem tanto.
Se entendo este como o último momento em que cada um pode soltar
o selecionador que tem dentro de si, seguindo-se a fase de cerrar
fileiras, de apoiar vigorosamente a seleção e de fazer contas no
fim (primeira divergência: esse acerto deveria ser feito após o
Europeu, não dois anos mais tarde, uma vez que, se há no futebol um
contrato por objetivos, é mesmo o de selecionador), cá vai: Miguel
Lopes pouco provou e, acredito, tanto Nélson como Sílvio levariam
vantagem; Ricardo Costa continua a somar chamadas em nome de uma
"'polivalência" que, por norma, dá maus resultados; trocar Ruben
Micael por ManueI Femandes ou por Paulo Machado seria um ato de bom
senso; na frente, terei de ser convencido que os veteranos
proscritos, Nuno Gomes e João Tomás, perdem para Hélder
Postiga.
De um outro ponto de vista, o da teimosia e da (falta de)
grandeza, hei-de lembrar-me de Ricardo Carvalho e de Bosingwa.
E de Hugo Viana, a quem não chegou ser o melhor centro-campista
português do campeonato nacional para ter direito à guia de
marcha.
Dito isto, Paulo Bento é soberano.
E os 23 escolhidos passam a ser os nossos, de todos nós.
No grupo em que estão, há quem peça o milagre.
Por mim, só peço que não repitam a cobardia cinzenta da África
do Sul.»
- João Gobern, jornal Record, 16 de Maio
2012
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